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junho 2014

A mulher mais feliz do mundo

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O apartamento era lindíssimo, amplo, pé direito muito alto. A mobília, antiga. Cadeiras, sofás, poltronas, cômodas, mesas, tudo cheio de detalhes e estampas bonitas. Chique. Fotos por todo lado, sempre de familiares. Muitas em preto e branco, afinal de contas são muitos anos de histórias para contar. Depois de alguns minutos ali dentro chegou à porta com cabelos brancos cuidadosamente penteados, maquiagem, roupas elegantes e uma bengala, do alto dos seus 96 anos. Noventa-e-seis-anos. Vinha com passos lentos, um pouco tremidos, mas confiantes. Trazia um sorriso e leveza no rosto.

Mostrou orgulhosamente o apartamento numa região central de Lisboa e cada porta-retrato que ali repousava.  Abriu as portas de vidro da sala de jantar e nos mostrou a varanda com cadeiras brancas, uma brisa deliciosa e vista espetacular para o Rio Tejo. “Era dos meus sogros”, disse após eu elogiar a beleza do lugar. Ficou sabendo que eu cantava e disse que queria me ouvir. Nos levou até uma saleta onde tinha um piano antigo e razoavelmente desafinado. Toquei uma das poucas músicas que eu sei inteiras (The Hill – Marketa Irglova) e ela gostou bastante. Disse que era pianista, mas que há anos não tocava nada. Insistimos muito para que ela tocasse para nós, obviamente. Sentou-se e começou. As mãos já fracas não respondiam com tanta facilidade, os dedos apenas esbarravam em teclas que deveriam ser apertadas, mas as notas soaram muito bem. Os erros faziam da cena ainda mais bonita. Parou, disse que não conseguiria. Falamos que estava ótimo, incentivamos e ela recomeçou. Mudou de canção, mas por mais que se esforçasse os dedos não acompanhavam a mente rápida e muito saudável. “É a osteoporose”. E assim foi por três vezes, até se levantar dali ao som das palmas e “bravo’s!”.

Voltamos para a sala de jantar enquanto ela cantarolava, onde nos sentamos e ela nos contou um pouco da sua vida. Nasceu na Ilha de São Miguel, nos Açores. Conheceu o marido em um baile no clube local. Mas não conseguiu dançar com ele ali, pois tinha 19 pretendentes para dar atenção e seus passos de dança. Posteriormente casaram-se e tiveram 3 filhos. Tocava piano, desenhava, pintava. A música sempre fez parte da sua vida desde criança. “A casa estava sempre cheia de músicos”, contou. Viajou o mundo com o marido, estiveram no Brasil várias vezes. “Morreu há oito anos, com 86. Era um homem extraordinário, eeeeeextraordinário. Éramos muito apaixonados, ele não ligava para outras mulheres”. Eu escutava aquilo tudo com muita admiração e mil coisas passavam pela minha cabeça. No meio da conversa olhou pra mim e disse que me achava bonita, que não sabia por que eu ainda não era casada. Vixe, se eu fosse explicar pra ela… Haha! Acho que a sua vida amorosa dá uma melhor conversa do que a minha.

“Eu já quero ir lá pra cima!”. Rebatemos a afirmação imediatamente, dizendo que ainda era uma mulher bonita e cheia de vida. “Eu já fui muito ativa, fazia de tudo. Agora não. Agora estou cansada. Já quero ir.”. Eu me assustei, mas no fundo não achei tão absurdo, compreendi. Não falava como vítima, não tinha tristeza. Sua fala e sua expressão eram recheadas de leveza e luz. Não sei o motivo, mas essa pessoa me afetou de alguma forma. Durante a conversa soltou a mais bonita das frases, o mais profundo desejo do ser humano: “eu fui a mulher mais feliz do mundo.”. Tenho certeza que o pretérito não significa que ela não seja mais assim. Quer dizer apenas que seus tempos áureos já se foram, provavelmente com o seu grande amor. Conversamos um pouco mais e nos despedimos. Disse que gostou muito da minha mãe e de mim e pediu que eu voltasse para cantar mais.

Pensei no quanto a vida é diferente para as pessoas. Eu sinceramente acho que a ela é uma combinação de sorte e escolhas. Sim, todos nós estamos muito cientes de que as escolhas são fundamentais, a alma do negócio. Mas convenhamos, a sorte tem lá o seu lugar ao sol. Com certeza essa senhora teve muitas dificuldades na vida, das quais eu não faço ideia. Mas nasceu e cresceu em uma ilha paradisíaca, segura, se apaixonou profundamente e foi correspondida, casou-se, viajou o mundo, viveu uma vida confortável e longos anos ao lado do seu amor. Senti uma alegria genuína por ela, um alívio, a sensação de que há gente muito bem nesse mundo e que elas podem nos inspirar. Pensei em histórias não tão felizes que eu conheço e nas que eu não conheço também. Fechei os olhos (mesmo com eles ainda abertos) e pedi por sabedoria nas minhas escolhas e uma porção generosa de sorte na mochila. Além, claro, de ter me sentido grata por ter conhecido a mulher mais feliz do mundo.

Foto do google, meramente ilustrativa.

Uma história de alegria e gratidão

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Vamos imaginar um lugar. Assim, só imaginar. O céu azul clarinho, com algumas nuvens. O sol está lá, mas meio tímido. De vez em quando foge e aparece por cima uma manta cinza, fofinha. Eles brincam o tempo todo, saem e voltam, trocam de lugar. Raios de sol, chuvinha fina. As quatro estações em um dia só, assim fica interessante. As casas são majoritariamente brancas, com pinturas coloridas em torno das portas e janelas. Não há prédios. Muitas das ruas são contornadas por uma longa fileira de hortênsias. Hortênsias em toda parte! É tudo muito limpo e organizado. Há montanhas verdinhas e nas ruas que as sobem há túneis formados por árvores, mesas para pic-nic, parquinhos para as crianças. Quem quiser passar uma tarde agradável é só aparecer por lá. Se for pra namorar, então, magia garantida.

O que mais? Deixa eu pensar… Podemos dividir esse lugar em pequenas regiões. Em cada região, há um espaço no qual seus administradores trabalham. Lá também tem um auditório, um espaço cultural que a população pode utilizar para atividades de lazer, festas, música. Por falar em música, precisamos pensar em algo nesse sentido. Que tal uma filarmônica? Não, não… Uma filarmônica não, pois seria pouco. Uma filarmônica em cada região! Vai ser isso. Vários instrumentos, músicos de todas as idades. As crianças saem das escolas durante a tarde e passeiam na rua, em filas, grupos, umas até dançam sozinhas. Quem não dançava sozinho na infância? Uma pena perder esse belo hábito com a idade. Não há perigo nenhum nesse passeio, é um lugar seguro.

Pensei em um lugar para as pessoas usarem quando quiserem. Que seja público, bem cuidado, uma estrutura dessas que não dão pra ter em casa. Um lugar para festejar, que caiba muita gente! Gente dançando, cantando! Vai ser amplo, arejado e coberto de telhas, pra que haja proteção se o céu quiser desaguar um pouquinho na hora do “sim”. Porque é claro, penso ser um bom lugar pra casamentos também. Além disso, um jardim. Lindo, delicado. Um jardim público, aberto a quem quiser entrar. Ele não corre perigo porque as pessoas não ferem as flores, elas cuidam porque o espaço é delas.

Para trazer paz, o mar. Tranquilo, reconfortante, muito azul, por toda a parte. Pra diversificar, pedras. Pedras de todo jeito, de todos os tamanhos! Umas bem grandes, formando piscinas naturais. Outras bem pequeninas, como biscoitinhos. Pra ser um pouco mais bucólico, campos verdes, vacas, cabras. Mas preciso de algo grande, encantador, marcante. Alguma ideia? Não sei.

Um vulcão! É ambicioso, mas acho que fica bom. Pode ser um vulcão fora de atividade, pra não correr o risco de estragar tudo. Mas quero que seja uma experiência, não um lugar. Há uma abertura grande em cima, esverdeada. O espaço interno é grande, as “paredes” são manchadas, os tons de marrom e bege se combinam de forma perfeita. Uma música leve toca ao fundo. Tão bela e natural que parece vir da própria mente. Mas não, é tocada lá dentro, mesmo. Lá embaixo, um lago azul. Em sua superfície caem gotinhas d’água vindas do “teto”, “percussionando” as canções. Tic, tic, tic, tic…

Acho que poderíamos mandar alguém pra lá, um forasteiro para se encantar. Um arquiteto, pra admirar a cidade! Não… Um biólogo, pra se maravilhar com as belezas naturais! Também não. Pensando, pensando. Um cantor! Aliás, uma aprendiz de cantora! Vai combinar com os sentimentos que emanam dali. Pode haver um concerto com participação dos músicos locais, porque interculturalidade é uma coisa linda! E esses moços serão bem simpáticos e se esforçarão para aprender músicas novas. E vamos por dança também! Mas cantar depende da voz e das vias respiratórias, que são muito sensíveis e imprevisíveis. Vai que ela fica doente. É melhor escolher outra pessoa pra mandar. Pensando bem, dá pra ser a cantorinha mesmo. Ela vai ficar doente. E vai se preocupar. E no meio de tanto encanto vai ficar com medo de não conseguir, porque a responsabilidade é grande. Ela foi pra lá pra isso. Vai começar a piorar e mesmo com o maior dos esforços, a verdade é que não vai conseguir pensar positivo sempre. Vai ter vontade de chorar.

Mas vamos mandar essa mesmo, nesse lugar há pessoas espetaculares. E essas pessoas vão cuidar da tal menina. Vão passear com ela por essas ruas e praias e montanhas. Vão abraçá-la com seus cuidados. Vão enchê-la de palavras de encorajamento, faladas em sua língua mas sob um sotaque todo especial. Vão lhe contar as histórias das ruas, das festas, do povo. Vão cuidar da sua saúde e da sua confiança. Acho que podemos colocar a mãe dela lá também, para o processo ser mais fácil. E assim, tudo vai dar certo. Ela não vai melhorar 100%, mas há de cantar. E há de se apaixonar por aquele pedaço de terra no meio do oceano e por aquelas pessoas. E há de se lembrar de cada detalhe. Sempre. Será grata pelas surpresas da vida, pelos caminhos que tem cruzado. Pelo que os seus olhos têm visto, por ter suas palavras musicadas ouvidas tão longe. Vai voltar com sua mãe, irmã e cachorro.

Na confusão megalomaníaca dos seus pensamentos vai se lembrar de outras experiências fantásticas que já viveu. A menina será grata pelo coração cheio de gente, de línguas, de sotaques, de lembranças. Vai passar por muitas dificuldades – muitas mesmo -, vai ficar triste com situações, com pessoas e vai sentir esse mesmo coração machucado. Mas só num pedacinho. Ela vai ser pequena, mas vai ser cheia de amor. Muito, muito, muito amor. Sem fim.

E vai ter vontade de chorar de novo…

Porque é feliz.

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Um abraço carinhoso ao Ildeberto Rocha, Anabela Faria, a Câmara de Angra do Heroísmo, a todos da Rádio Voz dos Açores (Portugal), aos envolvidos no show e aos queridos açorianos que me fizeram companhia nesses dias. Estar na Ilha Terceira foi um presente na minha vida.

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